sábado, 17 de maio de 2008

Ensaio sobre uma certeza

A certeza pra mim, é quase a mesma da de Sócrates, que só sabia que nada sabia, porém, com um acréscimo. Só sei que nada sei e que não sou o único a não saber.

Desta idéia, podemos repensar alguns papeis dúbios existentes na sociedade metidocultural.

O que são os críticos de cinema?

Há função mais medíocre e ao mesmo tempo mais valorizada que esta?

Não me refiro aos blogueiros ou a aqueles que comentam filmes em geral. Mas aqueles que tentam impor ao filme, arte audiovisual de elevada subjetividade, uma generalidade depredatória ou um leque de laquês refinados.

Acho revoltante um especialista em sei lá o que, pensar que pode resumir uma obra em um, dois ou dez parágrafos, na prepotência de classificar o filme na colocação que agora sim, ele poderá exigir ou ser. Não acredito nisso. Um texto, seja lá ele qual for, nunca conseguirá ser um ícone de uma obra artística cinematográfica, ou outra arte qualquer. Um texto é composto por palavras, já um filme, por imagens e sons.

Quando uma pessoa interpreta um texto e depois resume em um texto menor, está colocando o que compreendeu, a partir dos próprios conhecimentos, costumes e preferências, em mais um texto, com outras “palavras” e que também sofrem com o processo de significância da mesma.

Este texto aqui por exemplo, terá diversas interpretações e as mesmas, também terão que ser interpretadas por um terceiro, ou por mim, quase sempre de maneira desgastante. Mas um desgaste evolutivo, se é que isso pode existir. (evolutivo do dialogar)

Da mesma maneira, um filme que por ventura for palatreficado e diminuído em um texto, terá nele impregnado a falta de compreensão ou a compreensão exacerbada de alguém que é recheado de conhecimento e não conhecimento.

Às vezes, a falta de entender um filme, leva o crítico a atacar o mesmo. Por mais embasado e testemunhado que esteja, o crítico nunca fará a crítica que realmente o filme merece. Porque a superficialidade de um olhar, mesmo que um olhar pós-doutorado, é distante das intenções discutidas por uma equipe durante a pré, a pro. e a pós-produção cinematográfica.

Mesmo que este processo criativo não apareça na exibição do filme na sala de cinema, chega a ser fútil a audácia dos petulantes escritores.

Uma obra não vai aos olhos, para ser olhada por um rosto mascarado de presunções e achismos. Uma obra vai aos olhos com a intenção de tapear os olhos. E o rosto, tem que olhar e dar sempre a cara à tapa.

Estraga prazeres é o que eles tentam ser. Pois somos todos masoquistas da descoberta. Gozamos a solução. Amamos a resolução e mais ainda o processo.

Adoramos a cegueira no desprazer. É mais fácil inventar teorias sobre a discórdia a discordar de igual pra igual.

Metalinguagens à parte, “Ensaio sobre uma Cegueira”, de Saramago, foi adaptado para o cinema por Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Jardineiro Fiel) e sua equipe nacionalmente mista. (Blog do Meirelles sobre a produção do filme)

O próprio Meirelles, o qual enfatizo que consegue se defender muito bem sozinho, disse que adaptar para o cinema um livro muito bom, já é um erro. Imagina, é como se uma madrasta exigisse dos enteados, um amor igual ou maior do que o que a mãe tinha.

Lógico, há sempre aqueles que insistem em comparar as artes. Como se houvesse uma tabela sistematizada, onde seriam somados nas duas áreas os pontos nos acertos e retirados outros nos erros, para assim analisar quem teve mais pontos.

Ovacionado por cinco minutos após a exibição do filme, Blindness é uma obra que pode e vai atingir uma gigante bilheteria. Independente disso, Meirelles tem agora, um filme que é seu e não de Saramago. Arrisco lembrar que Saramago não saberia fazer metade da metade que Fernando faz na produção cinematográfica. Sim, ele faz muito na literatura, mas é este o ponto que eu queria chegar. É simples. São duas coisas completamente diferentes uma da outra. Duas linguagens. Duas artes. Duas técnicas. Duas pessoas. Duas visões. Duas cegueiras. E um monte de pseudo-entendedores de Fernando Saramago e José Meirelles.

Tanto acredito na metidocultura, que acho que há quem lê um livro, só para assim poder dizer que leu.

Mas eu não anseio o fim dos críticos de cinema, apenas os desvalorizo. Eles, assim como todos, não sabem de nada. (lembrando Sócrates) E aos críticos:

Deixem a arte nos levar para onde ...

Não precisamos dos seus suspensórios, sabemos nos vestir e nos nudar.

4 comentários:

Sonda disse...

...e eis que a Intersemiótica se fode.
Muito bom o texto. Metalinguagem crítica.

Iza disse...

Legal seu blog
Visite o meu estou postando tudo sobre Cannes 2008
um abraço

juliapedreira disse...

humm, vc está certo...bem, na verdade não há muito problema em fazer críticas a um filme, ruim é valorizá-las mais do que o devido!

Pedro disse...

Concordo plenamente!
Duas obras distintas contadas de forma mais diferente ainda!
Parabéns pelo texto!