... um picolé que estava, por azar, congelado. O mordi. Só de raiva.
Entrei na cozinha e lá estava meu pai. Descascando laranja. Ele faz uma espécie de vulcão ao modelar o corte da fruta. Criando um recipiente que mais parece um copo natural de laranja. Abri a geladeira e soltei: “pai, tem tanto tempo que não ch, chu, ch, ... (pausa de 15 segundos, olhar fixo sobre a maça que estava dentro da geladeira e mais uma vez tentei) Pai, tem tempo que não chupo uma laranja!” A frase saiu com uma obscenidade absurda. Isso me lembrou tempos remotos em que, ainda criança, temia frases como: “vou chupar uma bala.” Ou “vou chupar um picolé”. Era, pra mim, uma heresia sem tamanho. Não entendia a frieza com que os meus colegas diziam tal verbo. Eu preferia mascar um chiclete ou mesmo tomar um sorvete. Vivia fugindo desse drama cotidiano.
Há palavras que nos remetem a outras interpretações, outras sensações e lembranças. É claro que todas as palavras são significadas sempre de maneira singular por todos que a domina. Mesmo que não a domine. Só de escutar aquele ruído sonoro, cria-se uma imagem, um sentido, uma possibilidade sobre aquele som. Tenta-se, por meio de um avançado sistema de conexões cerebrais, assemelhar ao repertório vivido de cada um.
Lijar, por exemplo, lembra alguma coisa?
Sofluar, nabuzear, gaclonar, quetorir, profucer e profusser. São mais que palavras, são verbos. Mentira! Não são palavras, nem verbos e nem flores. Mas podem ser, se assim for melhor. As inventei. Assim como também posso zumar toda gramática e toda zitografia do português que, mesmo assim, fará o maior caçarol social. É difícil saber a etimologia das coisas, das palavras. Pode ser que eu tenha profusseado (com “ss”) algumas hoje, vai saber. Gispem lartas e colúrias, mas tulhem o que jodular em foita. Pois é dissimulando que criamos possibilidades.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Sabe o que eu acho dos críticos?
Assim como tudo o que eles dizem por aí, em blogs e revistas, de que importa?
Up - Altas Aventuras
Uma obra magnífica! A animação da Pixar Animation Studios em parceria com a Walt Disney Pictures é uma verdadeira aula de cinema. Fico aqui tentando encontrar maneiras de expressar e informar ao mesmo tempo, mas fica bem difícil. Não consigo desvencilhar as sensações que o filme me deu das perfeitas linguagem e técnica cinematográficas presentes na obra. Dignas de quem consegue, com uma animação em 3D, abrir um Festival de Cannes.
Uma narrativa simples e super arriscada. Uma história que, quando é delineada nos primeiros surpreendentes 10 minutos, cai no desespero dos roteiristas e marqueteiros de plantão. Como um personagem de um velho rabugento irá sustentar o envolvimento do público até o fim do longa? É uma questão que realmente passa na cabeça do espectador. O mesmo que estava absorvido pela grande tela, ainda enxugando lágrimas secretas, se vê preguiçoso a tentar permanecer a atenção na narrativa. Besteira! Ela, a narrativa, abusa de imagens e essas imagens transbordam de signos, símbolos e sinceridade. É com muita transparência que o personagem se entrega. Até porque já o conhecemos e acreditamos no seu passado. Não resta outra opção senão fluir. Como balões soltos no espaço, o filme flui em direção a uma doce e audaciosa missão: emocionar. E ele convence. A emoção pode parecer vergonhosa para alguns que se dizem durões ou, por outro lado, exagerada para aqueles, que como eu, se permitem chorar até incomodar a cadeira ao lado.
Seguir o sonho deve ser o objetivo maior da vida? Ou esse objetivo já é alcançado quando se sonha?
Resumi assim a moral, as questões que eu absorvi do filme. E é com essa mesma delicadeza vista no tema e na linguagem, que é feita a computação gráfica da animação. Há momentos da mais pura contemplação, produzidos especialmente para o espectador. É óbvio que é uma animação gráfica, 3D e tudo mais. Porém há detalhes, há textura, há luz, há interpretação, há som, há ritmo, há cadência, há homogeneidade, há física. É nítida a preocupação da equipe gráfica do filme com a realidade física para as cenas. Na história existem elementos que, por diferentes motivos, saem do chão e esses
elementos, por meio de plausíveis reações, voltam até o chão, convencendo o espectador da realidade impregnada dentro da fantasia. Eu me incomodei um pouco no momento dos aviões pilotados por cachorros, mas rapidamente entrei na ação.
Não assisti à versão 3D, aquela com óculo e tudo mais. Mas dizem ser uma das versões, desse tipo, mais necessárias já feita. Espero ainda ter a oportunidade de ver. Olha esse vídeo, é uma animação da Pixar, “Parcialmente Nublado”, que passa antes do inicio de “Up” nos cinemas. É ótima, mas é melhor na telona. Pelo mesmo motivo nem vou postar o trailler de Up – Altas Aventuras. To começando a temer a visualização de traillers antes de ver o filme. Da mesma maneira não vou disponibilizar aqui a sinopse do filme, nem explicar nada, acredito que isso só diminuiria a genialidade da narrativa.
Queria terminar dizendo que o filme Up diz muito sobre fazer ou deixar de fazer. Mas tem uma coisa que todos devem, ao menos uma vez, é assistir esse longa-metragem de super bom gosto.
Up – Altas Aventuras
EUA, 2009 – 96 min
Aventura / Animação
Direção: Pete Docter e Bob Peterson
Roteiro: Pete Docter, Bob Peterson e Thomas McCarthy
No Brasil a dublagem do personagem principal, Carl, é feita por Chico Anísio. Chico mostrou já estar acostumado a interpretar novos personagens e fez uma belíssima dublagem.
Uma narrativa simples e super arriscada. Uma história que, quando é delineada nos primeiros surpreendentes 10 minutos, cai no desespero dos roteiristas e marqueteiros de plantão. Como um personagem de um velho rabugento irá sustentar o envolvimento do público até o fim do longa? É uma questão que realmente passa na cabeça do espectador. O mesmo que estava absorvido pela grande tela, ainda enxugando lágrimas secretas, se vê preguiçoso a tentar permanecer a atenção na narrativa. Besteira! Ela, a narrativa, abusa de imagens e essas imagens transbordam de signos, símbolos e sinceridade. É com muita transparência que o personagem se entrega. Até porque já o conhecemos e acreditamos no seu passado. Não resta outra opção senão fluir. Como balões soltos no espaço, o filme flui em direção a uma doce e audaciosa missão: emocionar. E ele convence. A emoção pode parecer vergonhosa para alguns que se dizem durões ou, por outro lado, exagerada para aqueles, que como eu, se permitem chorar até incomodar a cadeira ao lado.
Seguir o sonho deve ser o objetivo maior da vida? Ou esse objetivo já é alcançado quando se sonha?
Resumi assim a moral, as questões que eu absorvi do filme. E é com essa mesma delicadeza vista no tema e na linguagem, que é feita a computação gráfica da animação. Há momentos da mais pura contemplação, produzidos especialmente para o espectador. É óbvio que é uma animação gráfica, 3D e tudo mais. Porém há detalhes, há textura, há luz, há interpretação, há som, há ritmo, há cadência, há homogeneidade, há física. É nítida a preocupação da equipe gráfica do filme com a realidade física para as cenas. Na história existem elementos que, por diferentes motivos, saem do chão e esses
elementos, por meio de plausíveis reações, voltam até o chão, convencendo o espectador da realidade impregnada dentro da fantasia. Eu me incomodei um pouco no momento dos aviões pilotados por cachorros, mas rapidamente entrei na ação.
Não assisti à versão 3D, aquela com óculo e tudo mais. Mas dizem ser uma das versões, desse tipo, mais necessárias já feita. Espero ainda ter a oportunidade de ver. Olha esse vídeo, é uma animação da Pixar, “Parcialmente Nublado”, que passa antes do inicio de “Up” nos cinemas. É ótima, mas é melhor na telona. Pelo mesmo motivo nem vou postar o trailler de Up – Altas Aventuras. To começando a temer a visualização de traillers antes de ver o filme. Da mesma maneira não vou disponibilizar aqui a sinopse do filme, nem explicar nada, acredito que isso só diminuiria a genialidade da narrativa.
Queria terminar dizendo que o filme Up diz muito sobre fazer ou deixar de fazer. Mas tem uma coisa que todos devem, ao menos uma vez, é assistir esse longa-metragem de super bom gosto.
Up – Altas Aventuras
EUA, 2009 – 96 min
Aventura / Animação
Direção: Pete Docter e Bob Peterson
Roteiro: Pete Docter, Bob Peterson e Thomas McCarthy
No Brasil a dublagem do personagem principal, Carl, é feita por Chico Anísio. Chico mostrou já estar acostumado a interpretar novos personagens e fez uma belíssima dublagem.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Ser
A vida se faz tão imbecil
Tão superficial
Tão frágil
Que às vezes
Mesmo sabendo dessa superficialidade desde os tropeços de criança
Mesmo assistindo todos os dias os jornais da TV
Mesmo depois das tentativas frustradas de se tornar um herói
Temos medo da morte
Ou mesmo
Medo da vida não ter sido ainda necessária
Medo de não ter sido
Visto que são palavras publicadas
Medo de não ser
Medo de só ser isso daqui
Tão superficial
Tão frágil
Que às vezes
Mesmo sabendo dessa superficialidade desde os tropeços de criança
Mesmo assistindo todos os dias os jornais da TV
Mesmo depois das tentativas frustradas de se tornar um herói
Temos medo da morte
Ou mesmo
Medo da vida não ter sido ainda necessária
Medo de não ter sido
Visto que são palavras publicadas
Medo de não ser
Medo de só ser isso daqui
Não consigo dormir
A dor da dúvida é muito forte.
Mas a dor da descoberta é pior.
Espero não descobrir mais nada nunca.
Mas a dor da descoberta é pior.
Espero não descobrir mais nada nunca.
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